05. O OUTRO COMO TESTEMUNHA NO CONTEXTO DA VIOLÊNCIA FAMILIAR

OLGA ARAUJO PERAZZOLO. UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL, CAXIAS DO SUL - RS - BRASIL.

Resultante de processos de investigação, qualitativa, sobre textos relativos à violência familiar, o trabalho propõe reflexões sobre novos padrões cotidianos de relações e determinações sociais e familiares. A significativa dificuldade que as famílias e a sociedade vêm enfrentando para conter as diferentes formas de transgressão e violência parece estar afetando a saúde e a regulação dos sistemas humanos/sociais. Nesse contexto, o lugar do sujeito testemunha no cotidiano da vida familiar como um dos elementos que sustentam as disfunções potencializadoras desse processo. Isso significa ter como suposto que o olhar e a escuta do outro, de um terceiro, são essenciais à manutenção das normas de convivência, à observância dos princípios compartilhados, e à propagação dos valores, em qualquer fase da vida ou faixa etária. Trata-se de um outro “real”, um terceiro vinculado aos potencialmente agressores e vitimas por laços de amor, de parentesco ou de cidadania que intervém com sua presença, suas perguntas, seu testemunho, restringindo o espaço do secreto, os ímpetos, os atos de violência, abusos, transgressões. A família, para atuar como instância promotora de preservação de seus membros, precisa enfrentar as falhas imposta pelas rotinas atuais, envolvendo as grandes demandas laborais, os novos hábitos, crenças, convicções. Fatos veiculados na mídia estão banhados de sinais que exibem a relação entre a falta do testemunho do outro - terceiro e as transgressões de toda a ordem dirigidas a idosos, crianças, mulheres, vulneráveis, exibindo os desertos humanos que, paradoxalmente, se instalam no centro da vida coletiva. As gravações domésticas, intencionais ou ocasionais, feitas por câmeras escondidas e celulares, mostram que na ausência de testemunhas as barreiras de contenção dos impulsos são transpostas e que, na presença delas, tendem a se manter. Estas proposições, que se inserem tanto no escopo sistêmico de compreensão de famílias e grupos, quanto psicanalítico na perspectiva do conflito/desejo e, ainda, psicoantropológico com tons da teoria do apego e do viés evolucionista, aponta para a importância do ver e do ouvir a relação, de forma sistemática como forma de conter o disfuncional. O outro terceiro, se porta voz da base moral e afetiva que enlaça e constitui o grupo, atua como elemento que assegura a preservação e ajustamento do sujeito, da família, da sociedade. Conclusivamente, propõe-se a reflexão sobre como o cotidiano social contemporâneo vem favorecendo o distanciando e o comprometimento dos laços e sistemas relacionais, bem como sobre as formas de intervir de forma pontual e coletiva nesse processo. Palavras chave: violência, testemunha, família